(Texto publicado no Paraiba Online por Helda Suene)
Neste sábado da Semana Santa um grupo de ciclistas resolveu encarar um desafio...percorrer de bicicleta a peregrinação de Padre Ibiapina pelo Brejo paraibano, normalmente feita por andarilhos. O caminho escolhido pelo grupo de ciclistas para iniciar a peregrinação foi o que leva ao Cruzeiro de Roma, denominado Via Roma. Os Caminhos do Pe Ibiapina, para quem não sabe, trata-se de um roteiro turístico/religioso que foi criado nos moldes do caminho de Santiago de Compostela (Espanha) e do Caminho da Fé, em São Paulo.
Nos Caminhos de Pe Ibiapina o peregrino tem quatro percursos a escolher: o Via Roma (56,2km) que tem como principal atrativo o Cruzeiro de Roma (Bananeiras), o Via Samambaia (Bananeiras), que passa pelo túnel samambaia (55,1km), o Via Cruzeiro do Espinho (47,4km), que tem como principal atrativo o Cruzeiro do Espinho localizado em Pilões, e o Via das Artes (90km), que tem como principal atração o Memorial Pedro Américo, na cidade de Areia.
Antes de iniciar o relato da pedalada gostaria de declarar nosso repúdio à falta de zelo e empenho dos órgãos públicos dos municípios envolvidos no projeto pelo abandono evidente dos Caminhos de Pe Ibiapina. Os marcos históricos (pilares de concreto que indicam os caminhos percorridos pelo missionário) estão sendo depredados, quebrados e derrubados pela ação do homem. Uma pena que não haja incentivos dos governantes em preservar a história. Com uma boa estrutura e divulgação os Caminhos de Pe Ibiapina têm tudo para atrair turistas peregrinos de todo o mundo e gerar riquezas para a economia local. Trata-se de um projeto muito bem estruturado pelo Sebrae e pela Diocese de Guarabira, mas que não tem tido o respaldo e continuidade dos governantes.
A aventura
Fui a única mulher a participar da aventura, num grupo de 11 ciclistas de Recife, João Pessoa, Campina Grande e Alagoa Grande. Não sabíamos muito bem o que íamos encontrar pelo caminho. Mas, estávamos dispostos a fazer a peregrinação de Pe Ibiapina... de bicicleta. Gente, a coisa foi bem mais difícil do que simplesmente pedalar sob o sol forte, no barro, na mata e etc. Posso adiantar que o sol foi o menor complicador da aventura. Primeiro, não tínhamos o percurso demarcado em GPS (equipamento que marca o caminho já percorrido). Como ninguém nunca tinha feito essa demarcação por GPS antes, tivemos que nos orientar com um mapa impresso mesmo e parando e perguntado aos sitiantes. Só que tinha trechos que eram só mato, não aparecia ninguém para nos orientar. Quando encontrávamos os marcos históricos tínhamos a certeza de estar no caminho certo. Mas, nem mesmo isso evitou que entrássemos num caminho errado e perdêssemos um trecho da peregrinação na zona rural de Pirpirituba. Acabamos pegando a pista. Mas deu para contornar o desvio mais na frente.
A peregrinação começa no Memorial Frei Damião, em Guarabira. Fomos de carro até lá e começamos nossa jornada aproximadamente às 8 horas, aos pés da estátua gigante de Frei Damião. O ideal seria começarmos bem mais cedo, mas sempre aparecem os imprevistos. Foi pura trilha na maior parte do tempo. Começou logo que partimos, para descer a serra até Pirpirituba. São 250m de descida, por dentro da mata e por mangueirais. Algumas poucas, bem poucas, subidinhas.
Em Pirpirituba uma parada para reabastecer de água gelada e continuamos nossa jornada até encontrar a Capela de Fátima, que fica no alto de um morro com uma subida bem inclinada para chegar ao topo, o que fez muitos pedaleiros empurrar a magrela. Inclusive eu. Muito íngreme. Esse foi o trecho mais aberto em que pegamos mais sol. Mas, se imaginávamos que o resto do percurso ia ser melhor, nos enganamos, pois depois de pararmos na entrada da Cachoeira do Roncador, para uma chuveirada (não deu tempo de aproveitar as delícias da cachoeira) e reabastecer de água os reservatórios foi que vimos o maior desafio para qualquer ciclista. Subir a serra até o Sítio Angelim. Começou a pauleira. Gente, simplesmente não dava para pedalar. Trilhas estreitas, muito inclinadas, cheias de pedra e buraco e só subidas íngremes. Foram 220m de subida empurrando as bikes, e, muitas vezes, carregando nos ombros. Claro que nessa hora os cavalheiros me ajudaram a levar minha bike.
Quando finalmente chagamos no Sítio Angelim, demos uma parada para descansar na casa de Dona Rosa, que gentilmente nos orientou a chegar no Cruzeiro de Roma. Sabíamos que viriam mais subidas pela frente...Cruzeiro geralmente fica no alto, não é? Mas resolvemos encarar. A essa altura do campeonato alguns membros do grupo já começavam a apresentar cansaço, dores musculares, e o ritmo já não era mais o mesmo para acompanhar os demais que iam mais na frente. O objetivo agora era chegar ao Cruzeiro de Roma, onde o carro de apoio nos esperava. Lá decidiríamos os que seguiriam até o Santuário de Santa Fé (em Arara), onde o Pe Ibiapina foi enterrado, nossa meta de chegada.
Só que quando chegamos finalmente ao Cruzeiro de Roma, localizado no Distrito de Roma, em Bananeiras, já eram quase 16 horas. Ninguém tinha parado para almoçar e após fazermos um breve lanche o grupo resolveu retornar para Campina Grande, pois se fôssemos continuar iríamos chegar no Santuário à noite e ninguém tinha levado equipamento (lanternas e sinalizador de bikes) para pedalar no escuro, ainda mais por dentro do mato. Pedalamos 31,5 Km, ou seja, pouco mais da metade do previsto. O que nos fez repensar que talvez esse fosse um percurso a se fazer em dois dias de bicicleta. Normalmente, o peregrino faz em três dias a pé. Claro que um ciclista acostumado a participar de maratonas e muito bem preparado vai conseguir fazer em um dia, o que não é nosso caso. Somos um grupo de ciclistas amantes da natureza e do esporte.
Uma coisa é certa, iremos completar o percurso Via Roma, partindo do Cruzeiro de Roma, onde paramos, até o Santuário da Fé, em Arara. A intenção é a cada ano, na Semana Santa, fazer uma via dos percursos percorridos pelo Pe Ibiapina... de bicicleta.
Tomara que até lá, os órgãos governamentais resolvam investir no projeto, que os gedeões (moradores da região) treinados pelo Sebrae possam voltar a atuar para que os turistas peregrinos possam receber o Certificado da Flor do Cedro como lembrança da peregrinação. Quem quiser ver algumas fotos da aventura acessem o blog do Campa Bikers.:http://campabikers.wordpress.com/. Aproveito para agradecer a colaboração do Sebrae-Guarabira e de Leandro Paiva, bombeiro de Guarabira e guia da região, que nos enviou mapas e informações sobre os Passos de Pe Ibiapina.
Os caminhos percorridos pelo Pe Ibiapina em sua peregrinação pela Paraíba, de 1856 a 1883, são um convite ao peregrino e ao caminhante para conhecer sua obra humanitária e a diversidade ambiental, cultural e turística do Brejo paraibano. A princípio, os caminhos estariam abertos e monitorados oficialmente nos dias 15 a 19 de cada mês durante todo o ano, com a presença de promotores e gedeões, a postos para certificar a passagem e carimbar o Passaporte do Peregrino, que, após completar os passos da Via escolhida, receberia o Certificado da Flor do Cedro, em Santa Fé. O que nós constatamos é que o projeto de certificação está desativado. Uma pena...
Mas, em se tratando da aventura, valeu muitíssimo a pena. Vamos pedalar!!!
0 comentários:
Postar um comentário